Explanemos. Benjamin
escreve, em algum lugar, que o poeta perdeu sua aura, termo este cunhado de
Baudelaire. É provável que o poeta tenha perdido sua aura, mas a poesia não. Ela
é tão velha quanto à humanidade, prática milenar: o que não sentir sentado numa
cadeira de balanço na manhã fresca? E o barulho das águas? E a bela mulher, ou
mesmo a feia? E as palavras sussurradas aos ouvidos? Afora tudo isso, a poesia
está impregnada no nosso cotidiano, por mais que nossos olhos estejam vendados.
O que nos importa,
entretanto, é poesia-palavra, toda dilapidada em versos, um poema. O poeta
perdeu sua aura, concordemos com Benjamin. Em que sentido? No sentido de toda
uma tradição de contar histórias, de relatá-las, estar sucumbindo pelo ralo.
Nos adverte Álvaro de Campos que o poema moderno é a vida sem poemas.
Pois bem, falemos um pouco
de Literatura. Acreditamos que ela tem uma maneira que lhe é peculiar de
transmitir a realidade. A linguagem literária busca reconstruir ou reconstituir
o mundo que nos rodeia. Falar artisticamente sobre um copo é diferente de falar
dum copo. É recriá-lo ou lhe juntar os cacos.
Os rapazes nos chamarão de
metafísicos. A ele chamaremos de críticos infelizes. E as mocinhas dirão que
somos radicais. Mas é claro! Vivemos num tempo onde a barbárie tomou conta da
cidade, se instaurou.
Nos permita falar da
humanidade, se é que esta palavra não perdeu seu significado, sendo apenas um
eco saudoso e vago. Aqui, é bem aqui que devemos dar voz ao Poeta, devolver-lhe
a aura. E é bem aqui que devemos tirar a venda de nossos olhos. É somente pela
poesia que vamos nos unir. É somente ela
que ligará o religioso ao sagrado, o metafísico à transcendência,o aristotélico
à catarse, o erótico ao orgasmo. E é pela poesia que a nossa aldeia se
transformará num lugar onde a barbárie não tem lugar.
Dêmos voz ao Poeta!
Marcelo Burmann

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