quinta-feira, 26 de abril de 2012 0 comentários

Delírios sobre os passos

Passos não atraem ninguém, talvez aplausos encabulem, olhares desafiem, palavras conquistem. Mas passos não são nada além de passos. Passos dados não tem volta, não há como não ter estado em um estado por onde já se passou, não há máquina que faça voltar o tempo, não há borracha que possa apagar.
Passos traem muitos, posso até dizer que passos traem todos. Pois quem nunca foi com muita sede ao pote e se decepcionou. Por quais caminhos você vai com plena certeza de que não ira se arrepender depois. Talvez aplausos sejam injustos, olhares confusos, palavras precipitadas. Mas passos não, passos falsos, em falso, passos traiçoeiros, passos são bem mais cruéis.
Passos são tortuosos, perigosos, maléficos e incapazes. Pois não se desculpam, eles sempre se esquivam te levando pra outro lugar, outra situação, um novo quadro, cena. E nem sempre vão para o melhor ato de uma participação qualquer.
Passos te arrastam, te carregam, te seguem, te cegam, te partem sem volta. Passos não atraem ninguém, mas traem quem estiver disposto a tentar.


Jéssica Cardoso
quarta-feira, 25 de abril de 2012 1 comentários

Elucubração.


E agora no poço 
estás tu a dialogar
com as paredes esparsas e
frias
a fazer peripécias imaginárias.


Permances aí no fundo, ignoto.
Mas é noite, e a insônia
caminha silente a passos
lentos com o tempo.


No escuro não se fala em
sigularidade. Não há alcunha
a ti conceber. 
Tu nem mereces disfarce 
o espetáculo acabou.


Se estás com sede
bebes água num
copo sem fundo.
Se queres dormir
não sabes como.


Um raio cruza o céu.
É o dia que vem
Um mundo de
possibilidades. 
E tu dormes. Dormes
em profundo sonho
sonhando o dia que
não este dia.


Marcelo Burmann

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Serra dos bons pensamentos


A janela mostra muitas coisas. O ar é agradável, a brisa sopra e bagunça meus cabelos. É assim que estou. Sorrindo ao ouvir algo que me fazia chorar. Estranho, muito estranho. É bom. Tenho vontade de sorrir. Gosto disso. O ar, o céu azul e os matinhos verdes me deixam assim, meio bucólica e pensativa. É bom escrever dentro de um ônibus em movimento. O texto ganha movimento. Posso escrever sobre tudo.
Posso escrever sobre as pessoas a minha volta, como por exemplo, o casal sentado ao meu lado. A alguns meses atrás eu poderia estar assim. Não estou. Agora vejo a serra se formando. Vejo as pessoas felizes. Não os invejo. Nem me desfaço deles. Tenho minha própria vida que segue com o ônibus correndo pela pista e deixando os arbustos para trás.
A música acaba e começa outra. A brisa continua gostosa. O nariz entupido também. O sol está gostoso, nem quente de mais e nem de menos. Apenas tocando meu rosto quando a vegetação o permite. Vejo a serra. Sinto o ar. Sinto meu peito inflar-se e sei que é assim que funciona. Estou viva afinal de contas.
O caminho agora é tranquilo, uma amada serra por subir. Amo isso. Amo ir para casa e estar com um sorriso no rosto pronta pra rever quem amo. Passo da ponde, vejo o rio a correr com suas águas.  Agora a serra vem chegando, vejo árvores robustas e vejo o rio lá em baixo.
Serra da boa vista, dos bons pensamentos, das pequenas emoções. Sigo rindo por todo o percurso, é engraçado escrever e sentir o que escrevo. Satisfação em alta. O cheiro da serra me deixa encantada e a visão do vale é linda. Queria tirar uma foto, mas não posso agora. Posso apenas descrever.
Pois bem, a serra segue, ou melhor, eu sigo. Vejo tudo que está lá em baixo, o rio, os pés de café e banana e vejo lá no fundo a pessoa que fui. Agora, vejo a pessoa que sou. Esta segue com o ônibus e vai rindo. Vendo o verde que tanto amo e sentindo os ares de casa chegando. É uma delícia. O sol toca-me o rosto e percebo, estou chegando em casa.
O texto vai ficando grande. Não me importo. O casal ao meu lado segue conversando. É bonito ver o amor, eu já senti isso, ainda sinto. É uma emoção boa. Mas, agora a emoção melhor é ver as árvores ficando para trás e a vida indo para frente. É a vida que segue. Logo logo chegarei em casa. Lerei o que escrevi e sentirei de novo os prazeres de subir a serra. Agora só a música flui. E o sorriso permanece. Sempre vai permanecer.
O ônibus segue despejando passageiros. Ele está lotado, como sempre. E como sempre, vou à janela. Meu pequeno mundo passageiro de muitas viagens. Paro alguns instantes para pensar a vida. Para sentir a música e o vento a tocarem minha alma.
Muitos dias subi a minha serra abraçada com um alguém. Um dia eu subi chorando, chorei todo o percurso. E agora? Agora peso o passado e tenho como resultado um sorriso de calmaria e de vontade. Vontade de viver. De ser quem sou. Talvez esse relato não seja digno de ser lido por outros, mas foi um exercício suficientemente bom para despejar a alma no papel. Uma alma talvez infantil, talvez imatura, talvez de menina, talvez de uma mulher. Ou melhor, uma alma pensante e romancista, um pouco de Álvares de Azevedo e outros comparsas literários. Pequenas influências importantes.
Chego à civilização. Texto pronto ou não. Esse é o fim. Fim somente enquanto eu não lê-lo de novo e começar a história novamente. Ciclo viciante e apaixonante.


Raiane.R.Reinell
terça-feira, 24 de abril de 2012 1 comentários

Um Uísque e Uma Puta


Que seja quente.             E traga gelo.
Que não entorne.             Me torne vil.
Que me aqueça.               Que me faça suar.
Que me enlouqueça.           Que me deixe louco.
Que tenha sabor.             Não importa o preço.
18 anos.                     Que me embriague.
Que me faça cair.            Que me deixe caído.
Que me traga a felicidade.   Que me trague um cigarro.
Que me acompanhe no jogo.    Que me faça um jogo.
Que acabe e me esqueça.      Que me faça esquecer.



Wesley Buleriano.
domingo, 22 de abril de 2012 3 comentários

Pedro e Neide.

- Neide, me conte como você se interessou pelo João?


- Então, menino, ele tinha um papo cabeça, é desses
que a gente fala que tem cultura. Me interessei mais
pelas palavras nunca antes escutadas- paliativo, edipiano
cônjuge,espectro, sem contar aquela coisa que me dizia ser
metáfora ou em sentindo metafórico ou metaforicamente falando.
No fim das contas, era apenas som mesmo.

- E o contato, Neide, o contato físico?

- Ah, nisso ele era ótimo. Só não gostava muito, inicialmente,
quando ele queria comer meu cu, mas logo me dediquei e peguei
gosto pelo negócio. Ele me chupava todinha, polegar a polegar,
ui! me arrepio só de pensar. Dedicava sua língua inteiramente a
esse corpinho que Deus me deu. Depois de realizada a liturgia,
aí o João me devorava. E eu a ele. Juntos, mais parecíamos
selvagens, uma total disputa por território, um campo de batalha,
o exército se posiciona estrategicamente.

- E o amor?

- Pedro, por que você não larga o cigarro e vem cá comer do fruto proibido?

Marcelo Burmann.
sexta-feira, 20 de abril de 2012 2 comentários

Egóico.

És tão belo como a lua,
Impávido colosso.

És um escárnio escancarado
Do vil rosto humano.

És grande. Rômulo, César,
Napoleão, Guevara.

És um sumo filosófico
Do escrutínio de merda.

Força astronômica.

És um megalomaníaco.

- Não me chame, criança,
não quero ouvir meu nome.


Marcelo Burmann.
quinta-feira, 19 de abril de 2012 0 comentários

Inconstância alcoólica


Às vezes sentimos coisas das quais não sabemos a origem. É um sentimento de curiosidade crescente. Tantas perguntas, poucas respostas. Perguntas sobre tudo, sobre a vida, sobre a morte, sobre o mundo, sobre o nada. Perguntas de mim, sobre mim. São tão poucas as que sei responder que, confesso isso me deixa frustrada. No meio da frustração algumas coisas boas acontecem. Fico sobressalta com tudo, meus sentidos se aguçam e, tudo a minha volta é visto de maneira diferente. Em busca de respostas vou seguindo meu caminho. Tentações aparecem. Se vão. Dificuldades vêm. Morrem com o desejo ardente de seguir. 
É surpreendente como as coisas acontecem. Pequenos problemas viram catástrofes. Catástrofes viram incidentes em um cotidiano. Loucuras à parte, o álcool vem abusar do meu ser e, eu não o reprimo. Venha a mim doce e amargo etílico, paradoxo da alma e inconstância no sangue!
No meio de uma embriagues alcoólica ou não, tantas coisas correm por meus pensamentos que é difícil acompanhar a velocidade de tudo o que se passa em minha volta. Os ônibus correm pela pista. As pessoas conversam sobressaltadas por assuntos desconhecidos. A cerveja vai acabando. Garçom traga mais uma, ou três.
Amanhã o gosto amargo do meu copo acordará em minha boca. Com ele as lembranças virão e constatar-se há que mais um dia se foi e com ela mais uma série de perguntas surgiu e de nada adiantou. Sempre assim, dias pensantes noites etílicas e a vida seguindo em frente.

Raiane.R.Reinell
segunda-feira, 16 de abril de 2012 1 comentários

Microcontos Bíblicos

Conta à história que o homem chegou ao Jardim do Éden bem na hora da missa, mas não pode entrar, porque o porteiro era o padre.
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Adão era um cara bacana a maior parte do tempo. Andava por aí, dando nome pra bicho, apelidando a rapaziada do futebol...
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Durante uma animada partida de gamão, entre um tira-gosto e outro, Adão me confidenciou: cara, não agüento mais minha sogra!
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Domingo, na pelada, Moisés chamou Maomé no canto e falou: porra Maomao, só quer saber de atacar! Volta pra compor o meio campo, caralho!
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João Batista, no meio de uma cerimônia, deixou cair seu Iphone. Não caiu na água, glória a Deus, disse.
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Poncio Pilatos olhou nos olhos de Barrabás e falou: olha o DVD, lançamento! Tá no cinema ainda. Ajuda aí, chefia, é três por dez!
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Um dia, durante o chá da tarde, Eva conversava com a serpente quando soltou uma gafe: menina, minha nora é uma cobra!
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Noé olhou para o céu e disse: mulher, melhor tirar as roupas do varal, vem chuva aí.


Wesley Buleriano
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Assalto à mão armada


Quem roubou nossa coragem?
Quem nos tirou isso?
Não sei.
Não temos coragem suficiente para perguntar.
Verdades sejam ditas,
Não temos coragem.
Medo de tudo
Medo do nada
Medo da vida
Foi um assalto à mão armada
Vidinhas “livres”
Rotinas sem vida.
Aventuras ilusórias
Lágrimas falsas
Perdão também.
Sonhos possíveis
Sonhos impossíveis
Amores desgastados
Pelo tempo,
Pelo medo
Pelo tudo.
Lágrimas verdadeiras
Dores reais
Coragem,
Onde está você?
Eu não sei.

Raiane.R.Reinell
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Bebi água do Amor

- Como vai?
- Vou seu.
- De quem?
- Bem.
- Seu bem?
- Não, seu.
- O meu bem?
- Às vezes eu. Entre o bem e o mal. Teu amor.
- Bebeu água do mar?
- Não, bebi água do amor!
- Você não tinha parado de beber?
- Sim, mas sem isso não sei viver...
- Sem beber?
- Sem você, seu amor. Meu amor.
- Ai, ai...
- Doeu?
- Não. Mas deu vontade de nadar nesse tal mar, teu mar.




Jéssica Cardoso

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Manifesto Pela Poesia e Pelo Poeta


Explanemos. Benjamin escreve, em algum lugar, que o poeta perdeu sua aura, termo este cunhado de Baudelaire. É provável que o poeta tenha perdido sua aura, mas a poesia não. Ela é tão velha quanto à humanidade, prática milenar: o que não sentir sentado numa cadeira de balanço na manhã fresca? E o barulho das águas? E a bela mulher, ou mesmo a feia? E as palavras sussurradas aos ouvidos? Afora tudo isso, a poesia está impregnada no nosso cotidiano, por mais que nossos olhos estejam vendados.
O que nos importa, entretanto, é poesia-palavra, toda dilapidada em versos, um poema. O poeta perdeu sua aura, concordemos com Benjamin. Em que sentido? No sentido de toda uma tradição de contar histórias, de relatá-las, estar sucumbindo pelo ralo. Nos adverte Álvaro de Campos que o poema moderno é a vida sem poemas.

Pois bem, falemos um pouco de Literatura. Acreditamos que ela tem uma maneira que lhe é peculiar de transmitir a realidade. A linguagem literária busca reconstruir ou reconstituir o mundo que nos rodeia. Falar artisticamente sobre um copo é diferente de falar dum copo. É recriá-lo ou lhe juntar os cacos.

Os rapazes nos chamarão de metafísicos. A ele chamaremos de críticos infelizes. E as mocinhas dirão que somos radicais. Mas é claro! Vivemos num tempo onde a barbárie tomou conta da cidade, se instaurou.

Nos permita falar da humanidade, se é que esta palavra não perdeu seu significado, sendo apenas um eco saudoso e vago. Aqui, é bem aqui que devemos dar voz ao Poeta, devolver-lhe a aura. E é bem aqui que devemos tirar a venda de nossos olhos. É somente pela poesia que vamos nos unir. É  somente ela que ligará o religioso ao sagrado, o metafísico à transcendência,o aristotélico à catarse, o erótico ao orgasmo. E é pela poesia que a nossa aldeia se transformará num lugar onde a barbárie não tem lugar. 

Dêmos voz ao Poeta! 


Marcelo Burmann


 
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