A janela mostra muitas coisas. O ar é
agradável, a brisa sopra e bagunça meus cabelos. É assim que estou. Sorrindo ao
ouvir algo que me fazia chorar. Estranho, muito estranho. É bom. Tenho vontade
de sorrir. Gosto disso. O ar, o céu azul e os matinhos verdes me deixam assim,
meio bucólica e pensativa. É bom escrever dentro de um ônibus em movimento. O
texto ganha movimento. Posso escrever sobre tudo.
Posso escrever sobre as pessoas a minha
volta, como por exemplo, o casal sentado ao meu lado. A alguns meses atrás eu
poderia estar assim. Não estou. Agora vejo a serra se formando. Vejo as pessoas
felizes. Não os invejo. Nem me desfaço deles. Tenho minha própria vida que
segue com o ônibus correndo pela pista e deixando os arbustos para trás.
A música acaba e começa outra. A brisa
continua gostosa. O nariz entupido também. O sol está gostoso, nem quente de
mais e nem de menos. Apenas tocando meu rosto quando a vegetação o permite.
Vejo a serra. Sinto o ar. Sinto meu peito inflar-se e sei que é assim que
funciona. Estou viva afinal de contas.
O caminho agora é tranquilo, uma amada serra
por subir. Amo isso. Amo ir para casa e estar com um sorriso no rosto pronta
pra rever quem amo. Passo da ponde, vejo o rio a correr com suas águas. Agora a serra vem chegando, vejo árvores
robustas e vejo o rio lá em baixo.
Serra da boa vista, dos bons pensamentos, das
pequenas emoções. Sigo rindo por todo o percurso, é engraçado escrever e sentir
o que escrevo. Satisfação em alta. O cheiro da serra me deixa encantada e a
visão do vale é linda. Queria tirar uma foto, mas não posso agora. Posso apenas
descrever.
Pois bem, a serra segue, ou melhor, eu sigo.
Vejo tudo que está lá em baixo, o rio, os pés de café e banana e vejo lá no
fundo a pessoa que fui. Agora, vejo a pessoa que sou. Esta segue com o ônibus e
vai rindo. Vendo o verde que tanto amo e sentindo os ares de casa chegando. É
uma delícia. O sol toca-me o rosto e percebo, estou chegando em casa.
O texto vai ficando grande. Não me importo. O
casal ao meu lado segue conversando. É bonito ver o amor, eu já senti isso,
ainda sinto. É uma emoção boa. Mas, agora a emoção melhor é ver as árvores
ficando para trás e a vida indo para frente. É a vida que segue. Logo logo
chegarei em casa. Lerei o que escrevi e sentirei de novo os prazeres de subir a
serra. Agora só a música flui. E o sorriso permanece. Sempre vai permanecer.
O ônibus segue despejando passageiros. Ele
está lotado, como sempre. E como sempre, vou à janela. Meu pequeno mundo
passageiro de muitas viagens. Paro alguns instantes para pensar a vida. Para
sentir a música e o vento a tocarem minha alma.
Muitos dias subi a minha serra abraçada com
um alguém. Um dia eu subi chorando, chorei todo o percurso. E agora? Agora peso
o passado e tenho como resultado um sorriso de calmaria e de vontade. Vontade
de viver. De ser quem sou. Talvez esse relato não seja digno de ser lido por
outros, mas foi um exercício suficientemente bom para despejar a alma no papel.
Uma alma talvez infantil, talvez imatura, talvez de menina, talvez de uma
mulher. Ou melhor, uma alma pensante e romancista, um pouco de Álvares de
Azevedo e outros comparsas literários. Pequenas influências importantes.
Chego à civilização. Texto pronto ou não.
Esse é o fim. Fim somente enquanto eu não lê-lo de novo e começar a história
novamente. Ciclo viciante e apaixonante.
Raiane.R.Reinell
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